Novo Focus visitado

É interessante ver o Focus na parte mais elevada das concessionárias. Quem freqüenta os salões de venda da Ford sabe que, por muito tempo, este foi o lugar de exposição destinado ao EcoSport (que desperdício) e ao Fusion, esse sim um automóvel digno de exposição. Pois qual não foi a minha surpresa ao chegar na concessionária e ver, todos pimposos, dois exemplares do novo Focus no local mais elevado do recinto: um hatch preto e um sedã prata, ambos GLX, o segundo automático.

Essa disposição já mostra que a Ford realmente “mean business” com a nova linha. Parece finalmente ter cansado de fazer apenas figuração após anos com o melhor carro do segmento e vai para as cabeças. Não que isso importe muito para o comprador típico de Civic e Corolla, mas ainda assim.

O carro é bastante imponente, ainda mais no segmento dos hatches onde estamos há anos comendo cozidos de gerações atrás (Astra, Stilo, Golf). Mostra que é atual. Já o sedã é mais classudo, e embora a traseira de fato não seja apaixonante, está longe de ser o patino feio que muita gente diz. Isto posto, a primeira coisa que vem à mente é que o Civic chama muito, mas muito mais a atenção. Não hoje em dia, em que se vê um a cada esquina, mas é um design mais interessante. O Focus sedã é um carro bonito, sóbrio, elegante, não desperta paixões, mas se garante. É bem na linha do novo Corolla. Já o hatch é mais bonito, embora a extrema inclinação do vidro traseiro cause estranheza. O Vectra GT-X, em que pesem todos os defeitos do carro, é sem dúvida mais bonito (mérito do Astra europeu). Curiosamente, atrás dos dois novos Foci havia um antigo. Aquele sim é bonito, o novo está mais para atual.

E dentro? O Focus antigo tem duas grandes qualidades no habitáculo: o desenho e a qualidade dos materiais empregados. Quanto a desenho, a discussão nem vale a pena: o antigo é bem mais bonito. O novo é sóbrio, elegante, agradável; o antigo era de tirar o fôlego, mas com um porém: o design cansa depois de um tempo, como é comum acontecer em desenhos muito arrojados.

Bom, tudo isso pra entrar na grande polêmica para os entusiastas: e aí, melhorou por dentro? Pois bem, chegou a voz dissonante, como costuma ser este blog: sim, melhorou.

Explicações são evidentemente devidas. O primeiro aparte é que entrei numa versão GLX, e portanto ela deve ser comparada com a GLX anterior. O Focus teve, até 2002, um revestimento interno diferente, em cinza claro e usando-se veludo nos bancos. Foi o melhor interior que tivemos no carro durante toda sua vida no Brasil. Esse interior é realmente imbatível. No entanto, o Focus foi simplificado e, a partir de 2003, os bancos foram revestidos de um tecido mais pobre, além do interior ter ficado todo em cinza escuro. Em se comparando este modelo ao atual, ambos são compatíveis – o tecido é bem parecido. O material do volante piorou, embora o banco esteja infinitamente melhor, melhorando assim um dos pontos críticos do Focus. O painel das portas também é inferior como um todo: o plástico emborrachado do topo das portas (e que se repete no topo do painel) não iguala o curvim macio do primeiro, embora esteja no mesmo nível da concorrência, como Civic e Corolla. Já o plástico do restante das portas é de qualidade semelhante, embora o Focus antigo apresentasse mais tecido nas portas. Essa redução do tecido nas portas é um dos pontos críticos do acabamento dos carros atuais, dada a sua drástica redução – tecido normalmente é bem melhor do que plástico.

O mesmo plástico macio do topo das portas é usado em todo o topo do painel, o que resulta num aspecto bem agradável e superior ao plástico rígido do modelo antigo. Um dos testes de qualidade de acabamento que gosto de fazer é tentar movimentar a parte superior do painel de instrumentos (aquela aba que faz sombra no velocímetro, conta-giros, etc.). Se ela é rígida, mau sinal. Se ela é macia, como é o caso do Golf e do 307, sinal de bom acabamento.

Já a parte central do painel é equivalente, com um bonito material prata, superior ao plástico acetinado preto do GLX antigo e equivalente ao acabamento simulando madeira escura do Ghia antigo – nem poderia ser diferente, já que esta seção é igual no GLX e no Ghia novos.

E por fim, os mostradores. Aqui está a grande diferença entre o Focus novo e o antigo. O painel do novo é de extermo bom gosto, com sua iluminação branca e vermelha, ponteiros com acabamento cromado e o detalhe da localização invertida, de cabeça para baixo, dos ponteiros do marcador de combustível e de temperatura da água. Muito bonito e impressionante, um dos painéis analógicos mais bonitos do Brasil hoje, rivalizando com o do Corolla equipado com Optitron e bem à frente do Fusion, por exemplo. O painel do Focus antigo, que nunca foi um dos pontos fortes do carro, ficou ainda mais para trás.

A discussão sobre o acabamento pode se estender pelas formas no painel, que por sua vez refletem o conceito estilístico do carro. O primeiro Focus defendia o estilo New Edge, agressivo, pontiagudo, inconfundível. No entanto, olhar para as linhas do carro cansava após algum tempo. O novo é bem mais conservador, e menos arrebatador, embora deva parecer atraente por mais tempo. Os interiores seguem as mesmas características: um interior arrojado e diferente, no primeiro, e um conservador, mas ainda bonito, no segundo. A meu ver, diferentes, muito mais do que um melhor do que o outro.

Assim, resta apenas a Ford resolver o fato do motor não ser flex (falha grave) e o câmbio automático de apenas 4 marchas, para ter um fenômeno nas mãos, um carro digno de combater Civic e Corolla de frente.

Ah, e por favor, ignorem mais uma pataquada da Quatro Rodas. Em sua edição de outubro, a revista publicou um quilométrico (uma página) comparativo entre cinco sedãs médios (Civic, Corolla, Focus, Linea, Vectra), e embora a revista mostre a vitória do Focus, o PCG (autor da matéria) disse em seu blog que na verdade o ganhador foi o Corolla, seguido pelo Civic e com o Focus em terceiro. Há, nunca ouvi coisa tão estúpida em minha vida. Com certeza o diagramador também não entendeu tamanho absurdo e colocou o Focus em primeiro na revista que foi às bancas. Afinal, quem entende de carro lá na 4R sem dúvida não são os repórteres (e muito menos o editor fotógrafo), mas pelo menos o diagramador nos dá uma luz de esperança...

Comentários

Israel Pablo disse…
Nessa a Quatro Rodas se superou. Foi pior do que o que fizeram na edição "Melhor Compra", com escolhas e ausências absolutamente injustificáveis. Uma pena ser a revista mais lida. Aliás, só compro por isso - pra saber o que a maioria das pessoas vão ler.
Sobre o Focus, o fato de o motor não ser flexível desestimula a aquisição. É que pra vender depois... nossa! Será aquela dificuldade. E o pessoal da Ford, ao invés de ficar calado, faz questão de anunciar que em breve oferecerá o flex. Vai entender!
Conrado Balbinot disse…
Descobri esse blog hoje, é bom saber que mais pessoas compartilham a minha opinião da ausência de respeito das montadoras em relação ao dinheiro do consumidor.

Por sinal, ta caro esse Focus ein?
Dubstyle disse…
Olha Conrado, tá caro como todos os carros no Brasil, mas se considerarmos a concorrência, o preço até que está razoável. Um Civic menos equipado sai por 65 mil, o Corolla por 67 mil. Mesmo o 307 na mesma motorização (2.0) é mais caro. Problema mesmo é não ser flex.

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