22.4.15

Existe carro ruim?


Claro que existe. Mas é importante ter perspectiva.

Muitos dos mais velhos defendem que todo carro atual é bom. Para dizer isso, eles estão pensando no passado, no qual a diferença entre os carros era mesmo maior e a baixa com fiabilidade mecânica levava muitos motoristas a ficarem no meio do caminho. Não foi à toa que o Fusca, com sua robustez e simplicidade, foi o carro que motorizou o Brasil.

Então se a sua noção de carro ruim é a de um que vai quebrar com sua família na estrada, aí não tem carro ruim mesmo. Nenhum carro 0km vendido no Brasil hoje deveria te deixar nessas condições.

E por isso mesmo que é errado continuar usando esse critério. Isso se chama “elevar a barra”. Quando os carros não tinham confiabilidade, chegar sem sustos de A até B era uma grande vantagem competitiva. Hoje, que todos fazem isso, a vantagem competitiva foi para outros itens.

Por isso que hoje o que devemos avaliar é prazer em dirigir, comportamento de suspensão, economia de combustível, espaço interno, nível de equipamentos. Carros significativamente piores que a concorrência nesses aspectos são piores, e este tipo de comparação é que a imprensa especializada deve fazer.

O melhor exemplo que vem à mente é o Jetta flex. É um carro ruim, ponto. É lerdo, é beberrão, é barulhento, o acabamento não é nada disso e nem o design. Claro que tem pontos fortes, como o câmbio e o espaço interno. Mas não dá pra justificar o preço sugerido, tem coisa melhor na mesma faixa.


Essa combatividade é que vai ajudar na melhoria dos nossos carros. Ah, a Volks está enrolando com esse motor 1.4T para o Jetta? Elogiar o Jetta atual não vai ajudar! 

8.4.15

Clarkson, Hammond and May

Não deu pro Jeremy Clarkson. A BBC anunciou que não vai renovar seu contrato.

A se acreditar no comunicado oficial da emissora, é impossível discordar. JC empurrou e xingou o produtor. Esse tipo de comportamento deve ser inadmissível, independente de quem seja. JC não pode se esconder atrás de sua fama e talento para abusar dos outros, da mesma maneira que um político ou juiz não deve esconder atrás de seu cargo para desrespeitar as leis, por exemplo.

O mundo corporativo de hoje não aceita mais o talento “indomável”. Se você é um gênio, porém intratável (para quem assistia, lembrem do Dr. House), não há espaço para você nas empresas. Elas vão de bom grado contratar alguém menos brilhante porém mais sociável. E estão certos; dificilmente a genialidade compensa a brutalidade.

O próprio caso do Jeremy é exemplar. Sim, Top Gear era uma das maiores fontes de receita da BBC e sim, é um programa idolatrado no mundo todo. Vamos à prática: Top Gear ia ao ar no máximo duas vezes ao ano, em temporadas de cerca de oito episódios, exibidos aos domingos. Então, são 16 semanas de TG e outras 36 de abuso e provocação. A BBC inventa outro programa para esse período e, mesmo que a audiência seja 50% menor, vai fazer tanta diferença? Sem esquecermos que a BBC é praticamente a única empresa do mundo que é estatal e funciona bem; ela não depende de anunciantes e sim de uma taxa cobrada dos britânicos.

O que aliás explica como o TG podia ser tão ácido – não depende de anunciantes e boa vontade de montadoras. Pegando de cabeça, lembramos de dois episódios que as montadoras se recusaram a emprestar carros ao programa. Em um, filmado nos Estados Unidos, a então Chrysler recusou empréstimo de um Dodge Challenger. Eles foram lá e COMPRARAM um. E depois no teste elogiaram o carro. Outra vez, a Bentley recusou empréstimo de um carro para um comparativo que foi filmado na Albânia. JC arrumou um Yugo e ficou o programa todo chamando o carro de Bentley. Algumas temporadas depois a Bentley emprestou de bom grado um carro para ser testado na Austrália...

Essa característica do Top Gear, e que tentamos manter com a independência do M4R, é o que mais sentiremos falta. Isso e as imagens absolutamente incríveis dos carros feitas pelo programa. Se a Nigella Lawson inventou o “food porn”, Top Gear inventou o “car porn”.

O que vai acontecer com JC de agora em diante não sabemos – ou, como diz a ótima expressão do inglês, “is anyone’s guess”. Richard Hammond deixou de se manifestar nas redes sociais, mas James May segue ostentando sua solidariedade dizendo que também está desempregado.


Um novo Top Gear com JC em outra emissora seria um sucesso, obviamente. O que não sabemos é se ele teria seus companheiros ao lado – não só os apresentadores, mas também a equipe técnica extremamente qualificada – e, principalmente, se ele quer continuar falando de carros após 13 anos consecutivos de Top Gear.

25.3.15

Por uma imprensa combativa

O UOL foi bastante ousado em matéria recente sobre o HR-V e manchetou: “HR-V é primeiro Honda com preço atrativo eprovoca correria às lojas”. Foi o suficiente para tornar o texto um dos mais lidos e comentados do portal, sendo que a vasta maioria dos comentários é relacionada ao alto preço do carro.

Ambos estão certos. R$ 70.000 pelo HR-V de entrada – versão manual que na prática não deve nem existir – em valores absolutos é muito dinheiro. Há dez anos era suficiente para comprar um apartamento razoável.

No entanto, o UOL também está certo e aqui no M4R aplaudimos de pé a alfinetada na Honda – e conseguinte alfinetada em todas as montadoras. O que a manchete quer dizer é: “Olha só, lançaram um carro com preço razoável e teve correria nas lojas! Que tal irem com menos sede ao pote montadoras?”. Sujeito fica dizendo bobagem achando que é matéria paga, quando na verdade é um tapa na cara das montadoras. Ironia é difícil de perceber.

A manchete também quer dizer que Fit, City, Civic e CR-V são muito caros, e são mesmo. Os preços da CR-V em muitos casos são compatíveis com os do Fusion e, embora com propostas diferentes, compará-los é como comparar o carro dos Flintstones com o dos Jetsons. Todos trazem uma lista muito escassa de equipamentos e um alto preço de tabela. O Civic, bastante defasado, agora começa a apresentar alguns itens que são de série há tempos nos sedãs da concorrência. E ficam fazendo alarde com coisas do tipo “ar digital”, que qualquer Astra já tinha em 1940.

E vendem porque a incompetência das outras no relacionamento com sua rede de concessionárias é de cair o queixo. Imaginamos que se a VW alemã fizesse teste cego como clientes nas concessionárias VW do Brasil mandava fechar tudo na hora. É vergonhoso. Aí a Honda oferece um atendimento razoável e pronto, é sucesso de vendas. O mesmo vale para Toyota.

Faria muito sentido se a imprensa fosse mais ativa e menos achincalhada nessa luta. A imprensa automotiva depende dos empréstimos dos carros pelas próprias montadoras para sobreviver, além dos anúncios de propaganda destas mesmas montadoras. Falar a verdade sobre um carro, como fazemos no M4R, pode sinalizar o fim desta relação – e o fato da GM não emprestar carros para o BCWS há anos é a prova de que isso pode acontecer.


Atitudes como essa matéria do UOL, ou então os comentários da C/D a respeito da comparação de preços entre Estados Unidos e Brasil, trazem o frescor necessário ao mercado brasileiro. É disso que precisamos, e não de mais uma reportagem sobre o Renegade.

19.3.15

Warning: loyalty

Vamos sair um pouco do assunto agora. Mas só um pouco.

Já citamos aqui algumas vezes o programa britânico Top Gear, da BBC. É o programa de TV sobre carros mais assistido no mundo, e uma grande fonte de receitas para a emissora britânica. Desde 2002 é apresentado por três jornalistas, Jeremy Clarkson, James May e Richard Hammond. O programa começou como algo bem focado em carros e suas avaliações no dia a dia, e ao longo de 22 temporadas passou a ser mais um show de diversão revolvendo ao redor de carros. Se no começo comentários sobre o porta-malas de um Berlingo eram assunto, ultimamente o que se vê são Mercedes AMG andando de lado na pista. De qualquer modo, a dinâmica de humor entre os apresentadores e as imagens absolutamente maravilhosas dos carros por si só já valem assistir.

Jeremy Clarkson é o líder do trio de apresentadores e o único que foi jornalista especializado em automóveis quase toda a carreira. É a alma do programa e é fácil deduzir que teve um razoável esforço para emplacar os primeiros Top Gear na grade da BBC, especialmente se considerarmos que o programa já existiu no final da década de 90 e foi limado da programação por baixa audiência.

JC sempre foi polêmico. É fumante assumido, arrogante, e sem papas na língua. Isso se reflete na avaliação dos carros, por exemplo. Quando não gosta, ele é bem claro com isso. Há algum tempo o programa testou pequenas SUVs – Clarkson dirigiu uma Tiguan e May uma Mazda6. E JC constantemente trocou os nomes dos carros, dizendo que eram “todos iguais”. Recentemente ambos fizeram um segmento sobre Peugeots, chegando à conclusão que a empresa em algum momento resolveu deliberadamente fazer carros ruins.

Esta postura levou a diversas reprimendas da BBC e da Oxfam, espécie de agência reguladora das TVs no Reuno Unido. Aparentemente, há alguns anos JC estava “under a final warning”, ou seja, sob aviso final. Mais uma e algo sério aconteceria com ele.

E esse algo sério aparentemente foi uma discussão com empurra-empurra (alguns falam em socos) com um produtor, aparentemente por não haver um suculento filé à disposição dele após um longo período de filmagem. Aí houve o desentendimento entre ele e um produtor, que foi levado à atenção da BBC que decidiu suspendê-lo também sob a ótica do “final warning”.

Clarkson sempre deixou muito claro que acha tudo isso um absurdo. É fã de Fórmula 1 (inclusive tendo feito um segmento muito tocante sobre Senna), e sempre que há alguma investigação ou suspensão na categoria ele é categórico em dizer que os envolvidos deveriam resolver isso “como homens”, o que, no linguajar politicamente incorreto dele, significa ou partirem para uma briga de fato ou darem “tapas nos ombros” e comentarem que “na próxima é minha vez de te pegar”.

Talvez JC tenha pensado o mesmo sobre o entrevero, mas a BBC não. E com isso ele está suspenso e nesse domingo já serão duas semanas sem Top Gear.

Toda essa explicação para chegar no ponto mais relevante: seus companheiros de atração, Richard Hammond e James May, se negaram categoricamente a apresentar o programa sem Clarkson. Ou vão todos ou não vai nenhum.

Esse tipo de fidelidade é cada vez menos comum. Quem está no ambiente corporativo já aprendeu que cada um defende o seu, e que nem quem parecia ser seu melhor amigo vai arriscar uma vírgula se precisar salvar seu nome. Infelizmente.

Claro que os apresentadores são estrelas por si só e muitos defendem que os três saiam da BBC e criem um outro Top Gear em outro canal, que será igualmente um sucesso. Mas não seria estranho ver os outros dois apresentando, até porque muitos fãs realmente preferem eles a JC (no M4R somos fãs do James May).


RH e JM têm mostrado seguidamente sua lealdade nas redes sociais e declarações. É bonito ver que ainda existe lealdade profissional no mundo.

18.3.15

No vermelho

O Autoentusiastas publicou recentemente um post no qual os colaboradores do site escolhem um carro para tempos de grana curta, ou seja, máximo de 15 mil.

Quem ler o post vai se deparar com uma sequência inimaginável de carros franceses que obviamente não fazem o menor sentido para quem está em condições financeiras críticas. Alguns fazem a ressalva: em épocas brabas, importa a economia. O resto não.

Concordamos com essa filosofia aqui. Quem está curto de grana e vai investir 15 mil não vai arriscar um Peugeot ou um Alfa Romeo (pois é, sugeriram). E para saber a resposta basta perguntar para os milhares de brasileiros nessa condição. E o que eles dirigem? Um carro que não foi citado. VW Gol.

Seguro obviamente não importa, dado que somente um em cada quatro carros na rua têm seguro. Manutenção em qualquer esquina, com peças amplamente encontráveis. Outros nessa linha são Palio e Uno, esses devidamente citados na matéria.

Aí, quando a coisa melhorar, investe-se no prazer.