Escolas de automóveis

Não é difícil identificar os atributos que indentificam os carros italianos em geral, e que tanto seduzem os aficionados. São carros lindos, onde toda a interação do humano com a máquina passa necessariamente por um detalhe pensado, desde o peso dos pedais até o revestimento de maçanetas e bancos. O design é irrepreensível. Nota-se claramente que ali existe uma paixão por automóveis, algo que falta em muitos carros por aí. Sobra personalidade. Na edição mais recente do Top Gear, sensacional programa sobre automóveis da BBC inglesa, um dos apresentadores (James May) testa uma Alfa Romeo 159, e faz uma brincadeira, colocando um centavo de libra numa caixinha toda vez que usar palavras cliché para definir o carro, como “alma” e “paixão”. E de fato é difícil não caracterizá-los com esses adjetivos.

O calcanhar de aquiles dos projetos italianos costuma ser a confiabilidade. O motor é gostoso, sobe de giro bem, o carro é uma delícia de dirigir e super bem acabado, mas quebra. E muito. É exatamente aonda os alemães excedem. A piada diz que o melhor carro do mundo tem engenharia alemã e design italiano – embora os detratores digam que o Stilo tem engenharia italiana e design alemão...

Essa busca, ou melhor, o retorno à essência do carro italiano foi o que, no fundo, tirou a Fiat européia de uma situação de quase falência. Com os anos, os Fiat perderam o charmoso design italiano que os caracterizava e ficaram sem graça, sem ter a excelência técnica alemã por trás. Os especialistas são quase unânimes em apontar o Grande Punto (apenas Punto para nós) como o marco da virada da Fiat. E o que é o Grande Punto na Europa? O carro que fez a Fiat voltar a ser bacana, na definição do próprio Top Gear. Um carro magnificamente desenhado, gostoso de dirigir, italiano em sua essência, mas apoiado por uma boa plataforma e motores confiáveis, que já provaram sua excelência no velho continente (o motor 1.9 turbodiesel, chamado de Multijet, é um dos melhores da categoria).

Esta essência italiana reproduz no Brasa um conflito que se estende há algum tempo na Europa; lá, não há no geral diferenças gritantes entre modelos competidores no mesmo segmento. Há, sim, conceitos muito diferentes sobre como deveria ser um carro. É como comparar um Maserati Quattroporte com uma Mercedes série S; uma Alfa Romeo 159 com uma BMW série 3; um Polo com um Punto. Ninguém está realmente mal servido com um carro ou o outro – o que existe é uma diferença de conceitos. Agora, repare como isso não existe ao falarmos de Stilo e Golf, ou de Palio e Gol. O Stilo foi uma cópia assumida do Golf de quarta geração (o que tínhamos no Brasil antes da aberração atual) e que não ajudou em nada o portfólio da Fiat aqui e na Europa. Ora, não é o caso de competir com os alemães justamente no que eles sabem fazer de melhor; ideal é competir com outro conceito, como era o Brava. O caso do Palio é diferente por ser um projeto de baixo custo voltado a países emergentes. Nesta categoria, conceito ainda é relativo – o que importa é levar pessoas, mais bagagem, ser resistente e ter custo baixo de manutenção. Ainda assim, tínhamos no Uno Turbo e no primeiro Palio 1.6 16v bastante flair italiano.

Hoje, portanto, escolher entre Polo e Punto é uma questão de preferência pessoal do motorista, e nesse ponto devemos sentir-nos privilegiados por podermos fazer esta escolha. Recentemente, o BCWS realizou um comparativo com Fit, C3, Punto e Fox. Trocando este pelo Polo, que é o real competidor da VW no segmento, temos à nossa escolha representantes de quatro escolas muito distintas de fazer carros, e comprar algum deles não significa, de modo algum, que você tem um carro ruim. Significa que você escolheu aquele que representa a escola de automóveis que mais lhe apraz. Vejamos:

Honda Fit – escola japonesa, ou oriental. Poucos equipamentos, acabamento de materiais simples porém muito bem encaixados, dirigibilidade pouco atraente, motor potente e econômico, de baixa cilindrada e muita tecnologia. Preço consistente (não são dados a promoções, o que ajuda a manter o valor na revenda) e praticamente indestrutíveis. Muita praticidade por dentro, e desenho mediano, que agrada, mas não excita nem ofende. (Repare aqui como o Civic foge, pra melhor, em alguns desses quesitos, mantendo outros, e por isso é o sucesso que é).

Citroën C3 – escola francesa. É uma linhagem que tem desaparecido, à medida em que os carros se parecem cada vez mais com os alemães em termos de engenharia. Design absolutamente diferenciado (seja pro bem ou pro mal) tanto internamente quanto externamente. Novas propostas para equipamentos que ninguém mexe (velocímetro digital com conta-giros analógico), ótimo acerto de suspensão, muita tecnologia, acabamento acima da média da categoria na qualidade dos materiais e no seu encaixe. Baixa resistência mecânica e prazer ao dirigir mediano.

Fiat Punto – escola italiana. Design de cair o queixo, tanto internamente quanto externamente. Acabamento exuberante, com materiais diferenciados, mas não necessariamente bem montados ou encaixados. Motores que giram alto e têm um ronco poderoso. Acerto de suspensão e direção que privilegia a esportividade. Praticidade e confiabilidade ficam em segundo plano.

VW Polo – escola alemã. Design apenas correto, que agrada mas não excita. Acabamento excelente, não tanto na qualidade dos materiais mas em seu encaixe e usabilidade. Parte mecânica excepcional, mas não empolgante. Suspensão tradicional, com um acerto mais duro. Muita tecnologia. Acabam por ser meio neutros, ótimos carros, mas não marcantes.

Embora os carros falhem em ser totalmente ligados às suas escolas – os motores do Punto, por exemplo, não têm nada a ver com a proposta italiana – eles representam bem idéias diferentes e muito interessantes acerca de como se fazer automóveis.

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