O fim dos carros

Lemos em diversos sites especializados críticas severas à saída da Porsche do campeonato de endurance (que até tem nome, sigla, mas que ninguém se importa. O que importa é que envolve a 24 horas de Le Mans). Combinado a isso, a Mercedes vai sair da DTM, o campeonato de turismo alemão que é tido como o suprassumo das corridas de turismo, ou seja, de carros que vagamente lembram seus primos vendidos ao cliente comum – embora a semelhança não seja maior que a do nosso Stock Car, que de Cruze não tem nada.

Ambas vão investir na Fórmula E, o campeonato mais bem-sucedido até agora envolvendo carros elétricos.

E aí os críticos estavam inconformados, dizendo que o mundo ia acabar, que Fórmula E é sem graça, disputada em circuitos de rua travados, que não ia ter barulho dos motores, que as duas categorias – Le Mans e DTM – iam acabar.

Concordamos com tudo isso. Só que o problema é mais profundo.

A desconexão dos jovens com o automóvel, a “celularização” dos carros, a importância cada vez maior do sistema de “infotenimento” ao invés da dinâmica do carro, isso sim é um caminho sem volta, e é a origem da crescente commoditização do carro, e que também está levando as fabricantes a adotar carros elétricos e tudo mais. Os próprios legisladores de países europeus já estão se deixando levar por essa tendência e promovendo leis de proibição de carros a combustão em alguns países.

(Note a ironia: de acordo com a BBC, em 2020 o carvão ainda será responsável por 22% da energia consumida no Reino Unido, e o gás por outros 29%. Mas o problema da poluição são os carros a combustão. E nem entramos no mérito que os carros elétricos “plug-in” consomem energia criada por essas mesmas fontes poluidoras)

A base real do problema é que os carros hoje são todos iguais.

Conhecido nosso, jornalista de grande porte cobrindo a indústria, já não se interessa mais por fazer avaliações de carros. “São todos iguais”, afirma.

É verdade. Qual a real diferença entre um Up, um Mobi, um Argo, um Onix, um Sandero? São todos compactos, motor transversal dianteiro, tração dianteira, câmbio manual, todos de reações muito semelhantes ao volante, comportamento de suspensão, e por aí vai.

A indústria chegou em tal consenso sobre a “forma mais eficiente” de fazer carros, que hoje todos são iguais. Imagine pintores chegando à conclusão que a forma mais eficiente de preencher uma tela é cobrindo ela de preto. Seria o fim da pintura como arte! É o que está acontecendo com os carros.

Some-se a isso as velocidades baixas, a profusão de radares, os diversos controles de tração e estabilidade que impedem o mínimo cantar de pneus, e fica claro que dirigir está completamente sem graça.


Recentemente pudemos dirigir um Corvette 1978. Comparar com um carro atual seria como comparar uma sinfonia a um zumbido. O Corvette inunda o motorista com situações. Começa pelo ronco do motor V8, seja em altas rotações ou mesmo ronronando, parado. Tem o tranco das trocas de marcha. Tem o pedal de freio não exatamente preciso. Tem o capô gigantesco, no qual não conseguimos ver o final. Tem o cheiro de gasolina. Tem o calor do motor que invade a cabine. Tem a pega do volante de madeira, e a folga enorme até as rodas dianteiras. E isso conduzindo civilizadamente, sem burnouts, escapadas de traseira entre outras coisas maravilhosas.

Apostamos que, se não todos, muitos jovens hoje indiferentes a carros teriam outra postura se tivessem contato com esse tipo de condução. É desnecessário recorrer ao celular quando a máquina invade seu cérebro com essas múltiplas sensações.

As fabricantes estão cavando a própria cova com essa profusão de carros sem graça, e cobrando milhões por carros que ainda tenham alguma graça. O Toyota 86 / Subaru BRZ foi um passo completamente acertado. Precisa ser reproduzido muitas e muitas vezes, por fabricantes de todo o espectro.


É isso que elas sabem fazer. Se ficarem nessa da commoditização e eletrificação somente, vão apanhar da Tesla e das empresas digitais.

Comentários

Marcelo disse…
A geração atual está cada vez menos preocupada com carro. As coisas que os chamam a atenção são os celulares, a conectividade, o Wifi, entre outros.

Até bem pouco tempo eu tinha na garagem um Maverick V8 74 impecável e mexido, um Golf TSi DSG e um Omega CD 4.1.

E um filho com 18 anos! Aí você pensa: "Esse moleque está no paraíso". "Quem dera meu pai tivesse isso quando eu tinha 18 anos!".

Pois é, nunca dirigiu nenhum desses carros, porque não quis. Não liga pra carro. Segundo ele, pra quê se ligar nisso? Vai sair e vai ter de se preocupar com estacionamentos caríssimos, ou com o carro parado na rua podendo ser roubado, ou não vai poder tomar sequer um chope porque se o fizer vai ser parado na Lei Seca.

Esse cara de 18 anos, meu filho, vai fazer 21 anos e nem a CNH se interessou em tirar.

Anda de carona ou de Uber pra cima e pra baixo.

Ainda existe uma galera que se liga em carro, mas na nossa época de 18 anos essa galera era exceção. Estão começando a virar regra.

Abraço,
Marcelo Schwan
Marcelo disse…
Corrigindo:

"Ainda existe uma galera que se liga em carro, mas na nossa época de 18 anos essa galera era exceção. Estão começando a virar regra."

Leia-se:
Ainda existe uma galera que se liga em carro, mas na nossa época de 18 anos essa galera era regra. Estão começando a virar exceção.
Unknown disse…
Pois é, nós percebemos que ficamos velhos quando começamos a dizer "no meu tempo é que era bom...". Mas podemos reclamar o quanto quisermos, o futuro vai chegar mesmo assim.

Os carros elétricos chegaram para ficar. As fabricantes tradicionais terão que mover-se rapidamente, ou ficarão para trás em definitivo. Acabarão extintas ou atendendo um mercado de nicho. Poderiam fazer carros melhores, mais divertidos de pilotar? Sim, mas quem se importa com isso somos nós, os entusiastas. Um mercado muito pequeno para as fabricantes de grandes volumes.

Sobre a crítica do texto aos motivos da eletrificação, faz sentido agora. Mas vai chegar o dia em que eletricidade será gerada de maneira limpa e isso não deve demorar muito. Já a queima de combustíveis fósseis sempre será poluidora.

Adoro carros, sou grande fã dos esportes a motor, mas não adianta reclamar da evolução. O negócio é aproveitarmos essas últimas décadas para curtir o que gostamos e talvez tomar algum gosto pelo novo. Já ouvi dizer que dirigir um Tesla é fantástico (do seu próprio jeito) e vi videos de um Tesla P100D dando pau em Mustangs modificados e um Nissan GT-R em prova de arrancada. Não faço ideia de como é o comportamento dinâmico de um carro desses, mas gostaria de experimentar.

Que venha o novo! ;)

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