A morte da Renault. Scénic.

Esses dias a Renault matou a Scénic. A imprensa automobilística brasileira, amadora e sem noção como é, tratou o fato como mais uma nota de rodapé, um dia como os outros. Se os jornalistas que cobrem o setor tivessem REALMENTE cultura automobilística, eles entenderiam que a coisa não foi bem assim.

A Renault inventou o conceito de minivans na Europa, com a Espace. Para o Velho Continente, a Espace tem a mesma importância da Grand Caravan para os americanos e da Nissan Praire para os japoneses: é a gênese, de onde tudo se originou.

O fato de ter sido pioneira colocou a Renault numa posição confortável, até hoje, quando se fala em veículos desse tipo. A Espace é muito bem aceita na Europa, assim como a Scénic. Claro que hoje o mercado é pulverizado em diversas minivans diferentes, mas mesmo assim a Renault se mantém com força. É algo que não pode se dizer da gigante francesa em outras categorias de automóveis, como hatches médios e sedãs, nos quais ela nunca emplacou nada realmente significativo.

A Renault no Brasil simplesmente começou com a Scénic, em 1999, seguida pelo Clio no mesmo ano. A minivan foi reestilizada em 2001 e está simplesmente há NOVE anos com a mesma cara. Em menos tempo, o Clio foi reestilizado duas vezes.

A impressão que dá, vendo de fora, é que a Renault contratou uma consultoria dessas bem caras para planejar sua entrada no Brasil, e que a recomendação foi a de chegar se diferenciando das quatro grandes já instaladas aqui. Então a Renault chegou mesmo com o pé na porta, com uma minivan, algo até então inédito em nosso mercado, e com um compacto que oferecia air-bag duplo de série.

Avancemos agora onze anos no tempo. O que é a Renault, hoje? Ela vende o mesmo Clio daquela época, como carro de entrada, e sem nem cheiro de air-bags. Ela vende o Logan, carro sem sal e projetado para ser barato. Ela vende o Sandero, idem. Ela vende o Symbol, um Clio sedã. Ela vende o Mégane, carro bonito e de concepção simples, interessante, mas nada inovador. De montadora arrojada e exploradora de segmentos, a Renault hoje embarcou na grande pasmaceira que é a maior parte da indústria automotiva nacional.

O que contrasta fortemente com a Renault europeia, fortemente calcada em inovação e ousadia. O Mégane hatch com o porta-malas de saliência protuberante, o Laguna constantemente inovador. O poucos compradores da Grand Scénic importada (um outro furo n’ água, já que a Renault começou a importar o carro faltando poucos meses para ele ser substituído na Europa) puderam apreciar o que a francesa é capaz de fazer quando quer fazer um bom carro.

Assim, no Brasil, a morte da Scénic pode ser considerada a morte da própria Renault, não como vendedora de carros, mas sim como montadora capaz de trazer algo interessante para o mercado. Pode parecer bizarro, mas hoje eu espero menos na Renault do que da GM. A GM ainda tem planos de dar uma chacoalhada na linha em 2012. A Renault, em que pese a beleza do Fluence, já não parece mais capaz de surpreender.

Comentários

Paulo disse…
Olá, espero que curta bem suas férias...
Em rel a marca Renault, além disso que vc falou, e que concordamos plenamente, e como proprietários de Nissan Sentra, vemos que a Renault/Nissan seria uma nova "autolatina" Conclusão: a Renault está queimando o filme da Nissan -e ninguém da imprensa especializada amadora e sem noção enxerga e comenta isso !!!Veremos, pois, daqui a uns 5 anos em que pé estará a Nissan e a Renault!!!
Dubstyle disse…
Paulo, acho que o grande problema é que a Renault assumiu que o Brasil é um mercado de quinta categoria e só vai vender aqui Logan e Sandero. A linha Renault na Europa é muito interessante (Clio, Modus, Laguna), assim como a Nissan (especialmente o Qashqai, sem falar dos Infiniti). Agora, enquanto ficarem no Brasil tentando emplacar Symbol e Tiida sedã, não vai dar...

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