Teste: Honda Civic EX 2.0 (Geração 10)



(Não encontramos fotos da versão do Civic que testamos. Então, como ilustração, as fotos externas são da versão EXL). 

Se o leitor já teve experiência em projetos em empresas saberá do que estamos falando. Alguns raros projetos são cumpridos com todos os envolvidos de acordo, tendo entregue o que se esperava deles. O cara do RH contratou as pessas certas no tempo certo, o cara do TI montou a infraestrutura adequada, o engenheiro entregou os cálculos, o gerente do projeto não matou ninguém.

Esse é o Civic Geração 10.

Um carro no qual todos os envolvidos no projeto entregaram o que se esperava deles. Isso quer dizer que é um carro excelente e a avaliação acabou aqui? Não. Quer dizer que, se todos os envolvidos entregam suas partes, o resultado final não tem falhas ou defeitos graves. Não quer dizer que é excelente – para um projeto ser excelente, ao menos uma (preferencialmente mais) entregas precisam SUPERAR as expectativas.

Primeiro a turma do design. Entregaram um desenho indiscutivelmente moderno, que difere do que temos nas ruas, ao mesmo tempo facilmente identificado como um Honda sem apelar para um Family Face que deixa todos os carros iguais. Se é bonito ou não é uma questão de gosto, mas a nosso ver ainda padece do mal de vários Honda recentes, que é o excesso de curvas, vincos e arestas. São desenhos que envelhecem rápido. Você olha a frente do Civic e imediatamente entende que uns dez vincos ou dobras não precisariam estar ali. Mas não é feio, longe disso, e ainda por cima tem o benefício de ser bem diferente, um sedã quase com formato de notchback, o dois volumes e meio tão popular na Europa. É também bem montado, com espaços pequenos e regulares entre as peças móveis.

Que aliás é uma vantagem da Honda, você pode comprar o primeiro carro que sair da linha de produção que ele estará tão bom quanto o último. Garanto que tem vários Jeep Compass rodando com a porta torta por aí...

Um senão para a parte externa é o extremo conservadorismo da Honda em oferecer cores mais vibrantes nos seus carros. Com exceção de um azul que saiu por pouco tempo no último Civic, a linha toda é uma profusão de carros pretos, pratas, brancos e cinzas. Este carro merecia um belo azul, um belo vinho, talvez até um belo vermelho ou verde escuro.

Por dentro a impressão é a contrária do Civic anterior, que era conservador por fora e ousado por dentro. O interior é o de um carro moderno comum, não que haja demérito, mas não tem criatividade. As versões superiores ao menos usam uma tela maior que traz alguma atratividade ao console central. A EX vem com a mesma tela de 5 polegadas presente no Fit e no City, que parece ter sido desenhada em Bangladesh por um grupo de bodes sem patas. É feia, sem graça, monocromática, totalmente inadequada para um carro desse valor. O cluster melhora um pouco, com os instrumentos agrupados no mesmo andar, o velocímetro digital herdado da geração anterior desta vez no centro do conta-giros e ladeado pelos mostradores (digitais, porém de boa leitura) da temperatura e do combustível. Abaixo do velocímetro está o medidor de consumo instantâneo – que, no formato de barra que a Honda insiste, não serve pra nada – e o computador de bordo.


(Este painel é da versão Sport manual. Para a EX mudam somente o câmbio, que passa a ser o CVT, e o couro nos bancos).

O acabamento mantém o bom padrão do Civic anterior, com plásticos emborrachados nas áreas de toque mais comum e encaixes precisos. O couro dos bancos é bacana, e o mesmo das versões superiores. O revestimento do teto é preto, novidade interessante porém que contribui para um ambiente menos espaçoso e mais quente. Embora esteja de acordo com o que se espera da Honda, honestamente um carro de 100 mil reais merecia mais capricho no interior, como revestimentos nos porta-trecos e porta luvas.

A acomodação do motorista é muito boa, aliás como costuma ser nos Hondas, com um banco bastante confortável e que parece ser adequado a diversos tipos físicos de motoristas. Os ajustes de banco e voltante são amplos, e desnecessário dizer que são manuais, afinal ajustes elétricos de banco para a Honda devem ser coisa de Rolls Royce. O volante tem boa pega e é revestido de um couro macio e agradável ao toque. Os comandos no volante são um tanto poluídos, porém com o uso acostuma-se com eles. O destaque vai para um comando de “escorregar” que deve ser usado com o dedão da mão esquerda para ajustes de volume. Se é prático não sabemos, mas é diferente.

O espaço interno ficou excelente para as pernas dos ocupantes do banco de trás, mas nem tanto para a cabeça: culpa do perfil baixo do teto, de ótimo resultado estético, mas ruim em termos de área disponível. Ainda assim, adultos razoavelmente altos – até 1,80m – acomodam-se sem grandes dificuldades. O porta-malas ficou cavernoso com 519 litros e uma abertura bem ampla.

Os equipamentos incluem hill holder, bancos em couro, banco traseiro bipartido 60:40, seis airbags, câmera de ré, cintos de três pontos para todos os ocupantes, computador de bordo, piloto automático, controle eletrônico de estabilidade e tração, faróis de neblina, fixação Isofix para cadeiras infantis, freio de estacionamento com comando elétrico, freios ABS com EBD e assistência em emergência, leds para luzes diurnas dianteiras e nas lanternas traseiras, modo de condução Econ, rodas de alumínio de 17 polegadas, sistema de áudio com tela de 5 pol, sistema de vetorização de torque, vidros com função um-toque e comando a distância para abertura e fechamento, volante de couro com ajuste em altura e distância, faróis com acendimento automático, iluminação no porta-luvas e nos para-sóis, retrovisores com rebatimento elétrico e repetidores de luzes de direção.

Pelo valor, é pouco. Falta teto solar, ar bizona, sensor de estacionamento (!!!), sensor de chuva, retrovisor fotocrômico, navegador, faróis de xenônio, e honestamente até itens como aquecimento dos bancos e ajustes elétricos, assistente de estacionamento e abertura e fechamento das portas sem chave.

Com exceção da versão Civic Rolls Royce Phantom Drophead Coupé Touring, todos os Civics mantêm o mesmo 2.0 da geração anterior, o que em si só não é demérito. Embora o downsizing esteja se popularizando, o 2.0 da Honda continua com muita lenha para queimar, apresentando números razoáveis de desempenho e excelente consumo para a cilindrada. São 155 cv a 6.300 rpm e 19,5 m.kgf a 4.800 rpm.

Aqui vale um parênteses para relatar a lenta porém constante evolução da Honda para tornar o Civic um carro de respostas mais ágeis na cidade. Quando a geração anterior foi lançada, conciliava um 1.8 girador, de altas rotações, com um câmbio automático de cinco marchas e relações longas, que prejudicava sensivelmente a agilidade do carro em cidades. Depois o carro recebeu um motor 2.0, com mais torque disponível em rotações mais baixas, que já melhorou consideravelmente a situação. Agora, na nova geração, a Honda acoplou o motor 2.0 a um CVT, de maneira a ter as respostas mais rápidas possíveis em uso urbano sem utilizar um motor turbo.

Pode parecer estranho à primeira vista associar o Civic a um CVT. O câmbio é velho conhecido da Honda no mundo todo e no Brasil a Honda foi uma das pioneiras com o equipamento na primeira geração do Fit. No entanto, o Civic sempre teve uma certa aura de “carro de entusiasta”, uma alternativa ao Corolla para as pessoas com alguma vontade de viver. E o CVT carrega uma péssima fama nesse cenário, por ser um câmbio que esquerteja a dinâmica do carro ao impor acelerações eficientes porém monótonas.

Seria correto então dizer que, no quesito powertrain, o Civic atual é menos entusiasta que o antigo? Sim. Mas a diferença é pequena: um automático de cinco marchas também não é o ápice da esportividade. De todo modo,a Honda continua oferecendo uma versão manual para os mais entusiastas, numa atitude extremamente elogiável, ainda mais considerando que a Honda fabrica câmbios manuais dos melhores.

Todavia, para nós a mudança de câmbio foi muito bem-vinda, e explicamos. Dá-se muita ênfase na mídia especializada de forma geral ao prazer em dirigir. Prazer em dirigir é de fato uma coisa importante. Para um jornalista que roda com o carro em estradas, autódromos, cidade fora do horário de trânsito, e depois de uma semana devolve o carro e pega um Jaguar, a ênfase estará mesmo em atacar curvas, devorar asfalto e essas coisas deliciosas – que para nós mortais são relegadas àquele raro domingo de manhã vazio de obrigações com família, amigos, trabalho e tudo mais.

Então nossa condução no dia a dia é no trânsito mesmo, no anda-e-para. Aí o CVT é simplesmente o paraíso. As relações infinitas permitem um câmbio curto para saídas ágeis, e que rapidamente se alongam para manter o giro baixo mesmo em velocidades ridículas, sem a sensação que o carro “gostaria de andar mais rápido”. O CVT é um multiplicador de potência e faz o Civic parecer razoavelmente mais ágil que a geração anterior, com a mesma competência do Corolla nesse quesito, ao mesmo tempo em que permite giros baixos para incentivar a economia de combustível.

Existe, para quem fizer questão a opção de trocas manuais por borboletas atrás do volante. São ágeis, bem definidas, sem muita patinação como se espera de um CVT, e sem dúvida úteis para o momento de andar rápido, mas não mais do que isso.

Outra grande diferença com relação à geração anterior está na suspensão. A arquitetura é a mesma, com o elogiável multilink na traseira, mas aparentemente dessa vez a Honda chamou alguém com mais de 18 anos para calibrar. Acabou a aspereza, acabou o carro “quicando” nos buracos, a absorção das irregularidades ficou bem melhor. Ficou um carro sólido, maduro, que sabe se comportar em piso ruim sem abrir mão da esportividade.

(Neste print tirado diretamente do site da Honda, note a pobreza: há uma instrução para o tratador de imagens remover os sensores de estacionamento da última foto, afinal o carro é tão pelado que os equipamentos precisam ser removidos digitalmente das imagens)

Considerando tudo, vale a pena? O salto com relação ao Civic anterior é nítido. O carro ficou maior, mais espaçoso, continua com um design diferenciado, está muito melhor de dirigir na cidade e mesmo na hora de descer a lenha continua muito bem. Para os Hondeiros, podem ir sem medo.

Para quem cogita outras marcas porém... Fica difícil justificar o preço e a penúria de equipamentos. Dentro da filosofia de japonês não quebra, o Corolla XEi custa menos, e o próprio Sentra é mais equipado por menos dinheiro. O C4 Lounge é o oposto em termos de confiabilidade, mas traz motor turbo e mais equipamentos também por menos.

No entanto, para o M4R, dois são os rivais mais ameaçadores. Para quem pode gastar nesse patamar, fica difícil negar o Cruze, mais equipado e com um motor mais moderno. E uma opção de excelente custo-benefício é o Jetta 1.4, também com motor turbo aliado a um ótimo câmbio, boa lista de equipamentos, espaço interno, e preço consideravelmente menor.

É a Honda de sempre. Ótima engenharia, poucos equipamentos, preço nas alturas.


Estilo 8 – Bonito, porém exagerado. Pontos altos na dianteira e na traseira.

Imagem – É um Civic né? Imagem bastante neutra, com a vantagem de não ter a conotação de tiozão.

Acabamento 8 – A Honda manteve um bom padrão, inclusive acima da média dos segmento, mas inferior aos carros das marcas premium alemãs.

Posição de dirigir 9 – Ótimos bancos, amplos ajustes, distância correta dos pedais.

Instrumentos 8 – O do EXL com a tela é bem melhor, mas o do EX funciona bem e não destoa do restante do carro. No entanto, preferimos um conta-giros dedicado.

Itens de conveniência 4 – Em se tratando de uma marca generalista e de um preço sugerido de 100 mil reais, esperamos uma lista bem mais recheada.

Espaço interno 7 – Muito bom, com exceção de altura dos passageiros de trás, que é um tanto reduzida.

Porta-malas 9 – Deixa de ser um problema do Civic e torna-se cavernoso. Note que na versão Sport a Honda tem a cara de pau de omitir até o revestimento do pescoço de ganso.

Motor 6 – Razoável em potência e torque, surpreendente em economia. O ronco não agrada.

Desempenho 7 – Ficou muito bom com o CVT, por extrair o máximo do motor em todas as situações. É suficiente para ultrapassar em estrada sem preocupações. Mas não vá puxar um pega com um concorrente turbinado...

Câmbio 8 – Muito bom como CVT, e conta com trocas manuais.

Freios 8 – Atendem bem, com boa modulação de pedal.

Suspensão 9 – Melhorou um absurdo e agora está no nível de grandes calibrações. Porém ainda apreciaríamos algo mais de maciez.

Estabilidade 8 – Vai muito bem – a nova calibração não tirou o apetite do Civic em curvas.

Segurança passiva 9 – Seis airbags de série. Surpreendente, pois é típico da Honda economizar nisso.

Custo-benefício 4 – Péssimo se considerarmos o nível de equipamentos e mesmo a motorização que começa a ficar defasada. Porém, pelas razões características do mercado brasileiro, vende bem e manterá bom valor de revenda, além de ser bom carro. 

Comentários

Anônimo disse…
Boa avaliação. Equilibrada, sem ser "autoentusiasta" demais e nem "especializada" demais. Parabéns.
ChAndré disse…
O post ficou muito bom, agora o carro, quanto mais o vejo mais admiro o Corolla (morde a língua) é muito carro do Jaspion para o meu gosto, o estilo combina mais com Hyundai que com Honda.

O Civic chegou a entrar na minha wish-list, mas já foi extraído com louvor pelas próximas duas gerações (afinal a próxima deve ser insossa).

Como não encaro um VW nem GM resta esperar o que a Ford está preparando para o Focus Mk4.
Gilberto Conti disse…
Os produtos da Honda estão estupidamente caros, mas em se considerando o custo de manutenção no longo prazo e a desvalorização ínfima, ele é um concorrente de peso ao Jetta 1.4 e ao Cruze Turbo.
E, se o Civic perde feio em comportamento dinâmico e trem de força, ele ganha potencialmente, caso o comprador queira um carro para além dos 2 primeiros anos.
Sobre isso: o M4R já fez algum post sobre os "lixos de rico" produzidos pela ausência de pós venda e a estupidez da manutenção de marcas como VW/Audi?
Dubstyle disse…
Gilberto,

Desculpe, não entendemos a menção aos "lixos de rico".

A todos, agradecemos a leitura.
Gilberto Conti disse…
Falo de carros bons quando novos, cujos custos de peças e mão de obra tornam a manutenção inviável - especialmente com solo/clima/combustível brasileiros -, despencando o preço.
Anônimo disse…
Aaa ta nao entedemos a mencao ... babaquice do caraio
Anônimo disse…
Tô rindo muito da agência que não verificou a imagem e do estagiário (só pode) que deixou o recado na legenda... :D
Dubstyle disse…
Gilberto,

Pautar lançamentos pela condição do Brasil é obrigar o brasileiro a andar o resto a vida com motor AP ou Monzatech, óleo 20W50, câmbio manual, vidro a manivela e por aí vai. Nós admiramos quem traz novas tecnologias APESAR das dificuldades enfrentadas no Brasil. Quem procura robustez tem opções, e quem prefere estar atualizado com o que se faz na Europa ou Estados Unidos também tem opções.
Gilberto Conti disse…
Entendo o argumento, e realmente concordo com ele. Que bom que algumas empresas ainda ousam trazer tecnologia (mesmo em uma linha diversificada, como as da Ford e VW, elogiadas em post mais recente de vcs - "a nós, o refugo").
Minha questão é a gestão local da indústria automobilística, que alguns chamam de predatória, mas eu prefiro chamar de tacanha mesmo, já que deixa de agregar valor sustentável à imagem das suas marcas, com investimentos estruturais na operação brasileira, que tornariam seus produtos muito mais atraentes.
E, nesse ponto, me refiro a repensar a relação com os concessionários com um compliance efetivo, e também rever o preço das peças.
Não consigo entender como uma peça da VW que custa 600 euros numa concessionária, na França, custe 3 ou 4 mil euros, num concessionário brasileiro. Não há tributo, custo de importação ou de operação que justifique essa diferença.
E insisto no ponto porque penso que - mesmo com produtos muito menos atraentes do ponto de vista do entusiasta - Honda e Toyota repensaram esse pós venda no Brasil, e conquistaram um valor agregado às marcas delas, que já certamente compensou o investimento.

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