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Dia desses o Joel Leite comentou na coluna dele a sinergia que pode acontecer da fusão entre Chrysler e Fiat. Eu confesso que até hoje nem parei para pensar no assunto, até porque tenho sérias, seríssimas, monumentais dúvidas em relação à viabilidade disso. A Chrysler está quebrada e a Fiat acaba de produzir seus primeiros balanços no azul após anos e anos no vermelho (e o fato de produzir o defasado Stilo por aqui, ainda mais com o motor 1.8 mais defasado ainda, mostra que a Fiat entende na estratégia GM de vender carros horrorosos para os brasileiros enquanto remete todo o lucro absurdo à matriz).

Mas vamos esquecer a conjuntura econômica por um momento e pensar apenas nos produtos. Joel Leite acerta quando fala que praticamente inexistem sobreposições em ambos os portfólios. A Chrysler é essencialmente americana, no sentido literal da palavra. Carros grandes, picapes maiores ainda e motores grandes e beberrões. Enquanto mesmo a GM e a Ford já obtêm relativo sucesso nos EUA com seus híbridos, a Chrysler ainda depende de aberrações do tipo “cilindros que desligam ao não ser necessário acréscimo de potência”, como acontece no 300C V8.

Já a Fiat sabe de fazer carros pequenos, e só. É a mesma visão que temos no Brasil: Palio, ok. Linea? Hm, vou pensar. Então há uma complementariedade; e não podemos esquecer ainda que a Fiat é dona da Alfa Romeo, marca apaixonante com muitos fãs americanos e que poderia estar à venda rapidamente, via Chrysler, num mercado automobilístico impressionante. MEIO POR CENTO do mercado americano significam 200 mil unidades, ou seja, as vendas anuais da Alfa.

Quando a VW reformulou o Polo e lançou-o com a cara do Mercedes classe E, na geração que tivemos aqui até 2004, foram feitos planos para introduzir o compacto no mercado americano. E a coisa logo naufragou, dado o pífio retrospecto das vendas de carros deste tamanho por lá. Por conta disso, o Polo também não é vendido no Canadá, um mercado sem o mesmo pode aquisitivo do americano. O que a VW fez? Ela exporta essa monstruosidade produzida aqui, o Golf 4,5, para o Canadá e vende a um preço menor que o Golf 5, que é comercializado normalmente por lá. Gambiarra, claro.
Mas as coisas mudaram. 149 entre 10 comparativos feitos nos EUA sobre carros compactos apontam o Fit como uma excelente compra, a prova que um compacto não precisa perder em dirigibilidade nem em conforto por conta de suas dimensões. Se há espaço para o Fit, há espaço para o Polo e, especificamente sobre nosso tema, para o Punto, o Alfa MiTo e o bunitinho do 500, destinado com certeza a fazer um sucesso no mínimo parecido com o do New Beetle.

Ok, então Fiat e Alfa ganham ao entrar no mercado americano. Hm, em termos. Ganham por possuírem um portfólio de bons carros compactos. Mas mesmo os carros compactos americanos precisam de câmbios automáticos, torque em baixa e durabilidade extrema, num país onde a boa manutenção é rara e cara, os carros têm um uso médio de 9 anos e rodam muito. Peraí. Fiat + câmbio automático + durabilidade? A conta não fechou. Não há um automático Fiat decente nem na Europa, e a marca ainda luta para ganhar fama em termos de confiabilidade (coisa que já melhorou no Brasil). Será que rola adaptar um câmbio da Chrysler? Pode ser uma boa saída.

E a Chrysler? Será uma mera fornecedora de componentes para a Fiat? Não tanto. Ainda existem americanos comprando carros grandes, e este não é um mercado desprezível. Onde a Fiat pode ganhar terreno é oferecendo os produtos da Chrysler, que são essencialmente americanos, no resto do mundo. Por mais que a preocupação com o aquecimento global aumente, sempre existirá uma parcela da população menos procupada com isso e disposta a comprar carros grandes – basta ver a quantidade absurda desses jipões coreanos que assolam o trânsito das cidades brasileiras, alimentando seus motores V6 para ficarem parados no congestionamento.

Trazer para mercados como o brasileiro a possibilidade real de comprar um produto Chrysler é um ganho, embora exista a necessidade de precificá-los abaixo da concorrência. De jeito nenhum o 300C faria o sucesso que faz no Brasil se houvessem Mercedes e BMWs na mesma faixa de preço com motorizações parecidas. Ainda assim, há espaço.

E, claro, a grande possibilidade da Fiat beber na fonte das picapes e produzir estes veículos em diversos países nos quais eles têm boa aceitação (Brasil, Rússia, Tailândia), mesmo com um emblema Fiat e um motor diesel Fiat – lembremos que a Fiat é dona da Iveco, marca de caminhões e utilitários, e da New Holland, que fabrica tratores.

Tudo isto, claro, se eles conseguirem superar as imensas dificuldades financeiras. A Chrysler não é exemplo algum de gestão eficiente e a Fiat também não era até há poucos anos. Pode dar certo como um hamburger pizzaiolo ou errado como uma pizza de hamburger.

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