Teste: Renault Duster Dynamique 1.6



É difícil acreditar que o EcoSport nadou de braçada sozinho por muitos anos no segmento dos utilitários esportivos compactos. Dá pra imaginar o tamanho do bônus que o cara da Ford que teve essa ideia recebeu?

A resposta da concorrência foi bem meia sola. A Fiat seguiu com a linha Adventure, pouco mais que adereços plásticos, até a chegada do diferencial Locker que pode ser bloqueado para ajudar em trechos mais difíceis – e, justiça seja feita, foi a Fiat que começou a moda em 99.

A GM tentou algo como uma Meriva mais elevada; não passou da fase de protótipo. E assim, ficamos com um mar de carros cheios de badulaques para parecerem aventureiros e o EcoSport como único representante com carroceria adequada.

Até que a Renault resolveu incrementar a sua linha Dacia no Brasil fazendo aqui o Duster, nome que faz referência a pó, poeira (dust em inglês. Os saudosos do Counter Strike vão lembrar do mapa de_dust). O Duster é um pequeno utilitário esportivo baseado em Logan e Sandero, carros de maior sucesso da Renault no Brasil, projetados pela romena Dacia.


Na Europa, a Dacia funciona como segunda linha da Renault; porém, ao contrário da Skoda que compartilha muitas peças e desenhos com a primeira linha da VW, a Dacia atua com projetos razoavelmente próprios. Em inglês, a filosofia da Dacia poderia ser resumida como “no-frills motoring”, ou seja, motorização sem frescura.

Os Dacia Sandero e Duster foram elogiados pelo James May, do Top Gear, justamente por isso. “São carros que recolocam o dirigir como um ato simples e prazeroso. É basicamente o motorista, o volante, um motor razoável e uma suspensão honesta”. Vamos lembrar que James May vive cercado de carros com trocentos equipamentos que, no Brasil, só em sonho...

A Dacia conquistou um bom espaço na Europa oferecendo a mesma proposta em várias plataformas: amplo espaço interno, equipamentos e motorização adequados à categoria e preço baixo. É a mesma proposta de Logan e Sandero, lá e aqui. E o Duster segue o princípio.

Assim, o que chama a atenção primeiro no carro é o porte. O Duster é bem maior que o EcoSport (4,2m de altura; 1,7m de largura e 2,49m de entre eixos contra, respectivamente, 4,31; 1,8; e 2,67 no Duster), mais parrudo, mais encorpado. Não tem o ar de “SUV de brinquedo” que acomete o Eco.

Dentro, o espaço é nitidamente maior que o Eco – e, vamos lembrar, porte e espaço são pontos fortes dos Dacia -, mas quem for esperar o tamanho limousine do Logan pode se decepcionar. Um motorista de 1,80m ainda permite boa acomodação para as pernas de quem vai atrás, mas não muito mais do que isso. A altura é muito boa, mas a largura nem tanto – embora seja largo, tem muito metal entre a porta e o habitáculo, o que compromete um pouco. O porta-malas é espaçoso e tem acesso bem fácil.

O design do Duster é polêmico. Ao ver um pela primeira vez, categorizamos na classe dos SUVs horrendos junto com o Veracruz. Mas é um desenho que aos poucos vai suavizando. Bonito não é, mas deixa de ser estranho (menos a frente. A frente continua estranha). Ao menos é contemporâneo e está atualizado. E no Duster os vidros planos laterais ficam bem menos estranhos do que em Logan e Sandero.

Por dentro é mais filosofia Dacia. Bastante plástico, interior simples, sem concessões ao design ao a peças mais arrojadas. De especial pobreza é o painel; o mostrador digital do computador de bordo requer que o motorista de acostume com os símbolos. Críticas ainda para os comandos do ar-condicionado, muito baixos.


No entanto, para diferenciar a versão Dynamique das mais simples, o Duster ganha revestimento em couro no volante e no pomo de câmbio, coisa de carro chique. Os puxadores de porta, em plástico metalizado, também agradam. Os bancos são bem desenhados, apoiam bem o corpo e são forrados em bom tecido. O motorista ajusta em altura, assim como o volante, que por sua vez dispensa o ajuste de profundidade - que faz muita falta. Obriga o motorista a assumir uma posição mais alta do que poderia para manter uma boa distância dos pedais.

Andando o Duster mostra o mesmo bom acerto de suspensão dos irmãos romenos. O conceito é simples, com eixo de torção atrás, mas muito bem calibrado. O Duster em especial é muito agradável de rodar em pisos mal conservados ou terra, absorvendo bem os impactos e transmitindo confiança graças à altura livre do solo. Mas não peça pra ser estável: o centro de gravidade alto se faz notar nas curvas mais rápidas, o carro aderna e o motorista nota rapidamente que andar forte em asfalto não é a praia. É confortável na cidade, com boa visibilidade e o motorista senta em posição elevada, que muitos apreciam.

E é bom apreciar a paisagem, pois andar forte com o Duster é difícil, ao menos na versão 1.6. São mais de 1.250 kg para uma unidade de 115 cv a 5.750 rpm com etanol e 15,5 m.kgf de torque a 3.750 rpm. O resultado é que o motorista precisa abusar do câmbio para obter alguma desenvoltura. A situação fica crítica em altas velocidades, como em estrada. Retomar velocidade acima de 100 km/h requer planejamento. Ao menos a Renault trabalhou bem o câmbio, mantendo razoáveis 3.100 rpm a 100 km/h e um escalonamento que permite trabalhar bem o motor. O câmbio em si é bom, com engates fáceis, embora a alavanca seja muito longa.

A dotação de equipamentos, mais uma vez seguindo a filosofia Dacia, é boa, em especial nesta versão de topo Dynamique. Ar manual, direção hidráulica de peso correto, retrovisores, travas e vidros elétricos (mas sem um-toque), ajuste de altura do banco do motorista, air bag duplo, ABS, alarme, faróis de neblina dianteiros, roda de liga leve, computador de bordo, um ótimo aparelho de som com MP3, USB e Bluetooth e comando na coluna de direção (que fica coberto por esta e portanto difícil de usar).

Vale R$ 56.900? É muito convidativo pular para o 2.0 por R$ 4 mil a mais. O EcoSport, renovado, é ótima opção caso o espaço interno não seja tão relevante. No entanto, para um uso eventual em terra e ótimo espaço interno, o Duster é altamente recomendável.



Estilo 5 – É bem resolvido na lateral e na traseira, mas a frente é estranha.

Imagem – Jovem, mas nem tanto. Para homens e mulheres.

Acabamento 7 – Fiel à tradição Dacia de plástico duro por todos os lados. O tecido dos bancos é bom e há boas surpresas nesta versão, como volante e câmbio em couro.

Posição de dirigir 6 – A regulagem de distância do volante faz muita falta. De resto, é um dirigir alto, como de costume em SUVs.

Instrumentos 4 – Mostrador digital para combustível e temperatura, e informações do computador de bordo um tanto confusas. E o grafismo poderia ser mais crativo.

Itens de conveniência 7 – Mais uma vez na filosofia Dacia, possui os equipamentos relevantes (a/c, DH, etc.), mas abre mão de mimos.

Espaço interno 9 – Amplo na frente e atrás, especialmente em altura. Motoristas muito altos podem incomodar as pernas de quem vem atrás.

Porta-malas 10 – Muito bom, profundo e plano, e com cobertura (economia inadmissível em SUVs bem mais caros...)

Motor 8 – O 1.6 16v da Renault foi um dos melhores do Brasil por bons anos; hoje, o Sigma da Ford e o e.Torq da Fiat estão pelo menos no mesmo patamar. Ainda assim, é um bom motor, silencioso e disposto.

Desempenho 9 – O Duster 1.6 é lerdo. Não tem como fugir disso. É um carro pesado e de aerodinâmica ruim. Acompanha o trânsito na cidade e, na estrada, faixa da direita.

Câmbio 5 – Padrão Renault de alavanca longa e curso longo. Os engates são bons e o escalonamento ajuda a tentar fazer o Duster menos lerdo.

Freios 9 – Tambor atrás, com ABS na versão avaliada. O peso elevado e os pneus grandes ajudam a ter um carro ótimo em frenagens. O pedal é bom.

Suspensão 9 – Conceito antigo, com calibração excelente, especialmente em pisos irregulares.

Estabilidade 6 – É um SUV com centro de gravidade alto. Se entrar rápido demais na curva, capota.

Segurança passiva 8 – Air bag duplo e ABS, o que – ainda bem – tem se tornado padrão.

Custo-benefício 7 – Pode parecer uma pechincha em se pensando no tamanho do carro e no fato de ser um SUV autêntico, mas em termos de prazer ao dirigir, equipamentos e conforto existem opções melhores, como o Focus 1.6.

Comentários

Anônimo disse…
"Desempenho 9 – O Duster 1.6 é lerdo. Não tem como fugir disso. É um carro pesado e de aerodinâmica ruim. Acompanha o trânsito na cidade e, na estrada, faixa da direita."

Então, o que seria um "3"?
Dê um "edit" aí, por gentileza...

No mais, gostei da avaliação.

Abraços!
Anônimo disse…
4,2 metros de altura uhuuuuuulll
Wagner disse…
Freios 9: O peso elevado ajuda um carro a ser ótimo em frenagens? Pensei que fosse o contrário, quanto mais pesado pior a frenagem... Eu acho que carretas carregadas realmente freiam melhor do que quando vazias...
Anônimo disse…
Ces num entenderam, é avaliação reversa!

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