Teste: Volvo XC60 T8 Ultra 2026
O que leva alguém em 2026 a escolher um Volvo? É uma compra racional num meio de compras emocionais. Porque a pessoa racional mesmo, de verdade, raiz, não vai gastar 510 mil reais num carro. Compra um VW Taos que faz a mesma coisa em termos de ir e vir e capacidade de passageiros e bagagem.
Ainda
bem que o mundo não é totalmente racional e, por mais que as fabricantes hoje
se esforcem muito para fazer os carros todos iguais, ainda existem muitas
variações. Aí o cliente quer não só o transporte, mas os atributos da marca. A
solidez estoica de um Mercedes; a jovialidade e prazer em dirigir de um BMW.
Mas Volvo? E mesmo pensando em segurança, nessa categoria não dá pra dizer que
um Volvo seja significativamente mais seguro que um outro SUV premium. Todos
passam com louvor nos testes de colisão.
Talvez
discrição. Pesquisando opiniões não racionais para este teste, encontramos
algumas vezes a afirmação que Volvo (e Lexus) são os carros dos “ricos de
verdade”, pois os alemães são para quem quer ostentar e rico de verdade não faz
isso. No caso do Volvo XC60 isso faz muito sentido, pois o carro tem o mesmo
design desde 2017. Para ter uma ideia, para este modelo 2026 o carro ganhou o
face-lift mais radical em oito anos, e o que mudou? O desenho da grade, dos
para-choques dianteiro e traseiro, e (prestem atenção), a lanterna traseira foi
levemente escurecida. Uau, devem ter chamado a Pininfarina pra fazer tudo isso,
espero que não tenham se cansado.
Particularmente,
achamos incômodo pagar mais de meio milhão de reais num carro que é a mesma
cara do modelo 2017 que custa uma fração desse valor. Vale notar que o modelo
2028 acabou de ser lançado nos EUA e Europa e mostrou um facelift mais
agressivo que alterou lanternas, grade e partes do acabamento. Aí sim dá pra
perceber que é um design atualizado.
Ao
analisarmos os números de vendas e descobre que em setembro de 2025 a Volvo
Brasil foi quem mais vendeu carros dentre todas as subsidiárias Volvo no mundo,
à frente da Suécia e da Irlanda. Descobre que 2025 foi um ano recorde de vendas
para a Volvo do Brasil. Descobre que o XC60 é líder de vendas no seu segmento.
Descobre que o XC60 é o Volvo mais vendido no mundo em todos os tempos. Parece
que esse atributo, a discrição, tem bastante valor. Quiet Luxury as they say.
Quem
optar por um XC60 em 2026 leva pra casa um carro com atributos peculiares, que
vai por caminhos incomuns em alguns sentidos e com isso obtém vitórias e também
derrotas. O design, como já falamos, é bonito porém a falta de atualizações o
torna cansado e relativamente comum. Há elementos característicos da Volvo que
apreciamos como indicadores de personalidade, como o “martelo de Thor” nos
faróis dianteiros e as lanternas traseiras elevadas, também o perfil com a
janela ascendente após a coluna C e o longo capô. Tudo isso distancia o Volvo
dos chineses e seu design mais genérico (ironia, pois a Volvo é da chinesa
Geely) e atribui personalidade ao carro. É um carro considerado compacto nos
padrões americanos, mas enorme no Brasil e particularmente largo: se você
dirige em vias apertadas, cuidado.
Por
dentro está a maior vitória do XC60 a nosso ver, junto com a suspensão da qual
falaremos mais adiante. É um ambiente de dar tapa na cara e que não fica a
dever a carros muito superiores. É a maneira mais fácil de tentar justificar
onde foi dispendiado o investimento tão alto na compra do carro.
A
unidade testada, T8 Ultra, é a top de linha e mostra isso no interior em
tonalidades creme (a cor do interior varia com a cor externa, podendo ser preto
ou creme). O couro dos bancos é napa legítimo, de uma maciez incomparável, uma
textura aveludada como devem ser os couros de verdade e não esse plástico que
se chama de couro nos carros de volume. O formato do banco em si é excelente, e
descobrimos ao fazer este teste que a Volvo é reconhecida pela qualidade
ergonômica dos seus bancos. Só podemos concordar. Os dianteiros possuem
regulagem elétrica de altura, distância, inclinação do encosto, do assento,
ajuste longitudinal do suporte para as coxas, ajuste lombar e ajuste das abas
laterais, o que achamos particularmente excelente por permitir boa posição para
diferentes corpos. Tem também aquecimento e ventilação, mas curiosamente não
tem massagem.
Prova
do orgulho da Volvo em seus bancos é uma pequena bandeira da Suécia costurada
na lateral interna do banco do passageiro.
A
excelência do acabamento continua no restante do interior, como é de se esperar
de um carro dessa faixa de preço - embora alguns vacilem. Todo o revestimento
do painel e das portas é macio; os porta-objetos das portas possuem
revestimento aveludado para evitar o barulho; e, o que para nós é o charme
diferencial mais relevante, há uma faixa de madeira legítima no painel. Nos
carros com interior preto ela é cor de madeira, e nos com interior branco ela é
branca – o que lamentamos, pois seria bem bonito a faixa em cor de madeira. A
preocupação com sustentabilidade da Volvo é tamanha que eles fazem questão de
frisar que essa madeira é “driftwood”, ou seja, oriunda de troncos que caíram
naturalmente em rios, e nenhuma árvore foi derrubada no processo. Interessante
que não falam nada sobre a origem do couro Napa dos bancos, mas há uma opção de
tecido natural para quem se incomodar com isso.
O
motorista, muito bem acomodado, neste banco logo repara que o acelerador é
pivotado no chão, como gostamos, e que há amplo espaço de descanso para o pé
esquerdo. O volante de três raios é branco com couro cinza escuro na parte
externa, o que ajuda a disfarçar eventuais sujeiras e deixa a peça bem
especial.
No
console central o que chama a atenção é um enorme porta-copos com espaço
dedicado para a chave presencial (um detalhe que faz muita falta quando
ausente) coberto elegantemente por uma cobertura da mesma madeira que o painel.
Ao lado, uma manopla de câmbio magnífica em cristal sueco feito por uma empresa
chamada Orrefors, e que possui iluminação dedicada à noite, criando um ambiente
muito agradável.
A
iluminação interna é toda acionada por toques diretos nas lentes, e o controle
do teto solar e da cortina é também sensível ao toque. A cortina é translúcida
e sempre deixa um pouco do sol entrar, o que faz sentido na Suécia mas para o
Brasil deveria ser trocada por uma cortina totalmente opaca ou pelo menos mais
escura.
Atrás,
o acabamento é igualmente bom, com os mesmos materiais nobres empregados nas
portas e bancos. Há saídas individuais de ar-condicionado colocadas nas colunas
B, um charme da Volvo há algum tempo, porém não há nenhum controle do ar para
os passageiros de trás. Há ainda duas tomadas USB-C. A parte traseira dos
bancos dianteiros é revestida em material rígido com redes fazendo o papel de
porta-objetos, algo comum nos carros premium e que honestamente não entendemos
o motivo.
O
espaço atrás é bom em altura e largura mas algo limitado para pernas; dois
adultos altos podem ficar algo desconfortáveis, e um terceiro vai sofrer com o
túnel elevado no centro, onde não passa mais um eixo cardã porém ficam alocadas
baterias. Faria sentido, no desenho geral do carro, reduzir um pouco o capô,
que é bem comprido, para tentar priorizar o espaço interno longitudinal.
O
time de “color & trim” fez sua parte de maneira magnífica. É difícil
lembrar de um carro que tenha impressionado tanto pelo acabamento. Pontuamos
ainda que as sensações de botões e alavancas são todas corretas, com a
resistência na medida para transmitir a sensação de qualidade.
Infelizmente
o cluster não segue o mesmo padrão de excelência. Não em resolução, que é
ótima, mas em falta de recursos. A tela dianteira mostra a velocidade à
esquerda, tanto digital quanto numa escala de 0 a 200 km/h que, honestamente, é
totalmente inútil. Na direita, mostra a marcha engatada (porém não indica a
marcha individual quando em D), o modo de condução, e um indicador em meio
círculo oposto ao velocímetro que indica o quanto de energia é demandada em
acelerações e o quanto é recuperado em frenagens, seja usando o pedal de freio
ou no modo B – one pedal drive, que falaremos mais adiante.
Há
ainda um pequeno indicador de gota de combustível, que indica a partir de qual
momento de demanda de potência que o motor a combustão será acionado. Com
bateria a plena carga, é necessário passar da metade do curso do acelerador
para isso. Conforme a bateria vai sendo utilizada, a gotinha desce. Com a
bateria zerada, a gotinha indica que o motor a combustão será acionado para
qualquer demanda de potência. Ela também fica zerada quando utilizamos os modos
de carregamento ou manutenção da carga da bateria (mais sobre isso adiante).
No
enorme espaço central entre esses indicadores, fica um mapa do Google. Se você
colocar uma navegação, ela aparece ali (Google ou Waze. Não testamos Apple mas
deve funcionar igual). Existe a opção de apagar o mapa e deixar ali tudo preto.
E só.
Puxa,
tanta opção que poderia ter para esse espaço. Computador de bordo. Pressão dos
pneus. Indicadores do motor como nível de óleo, temperatura. Emissora de rádio
selecionada, ou faixa de música tocando. Não, não colocaram nada disso. Mas
lembremos, a XC60 tem vergonha de ser carro. Prefere não mostrar nada disso. É
claramente uma decisão corporativa de design que afasta o produto da categoria
automóvel e aproxima de gadget, particularmente na linguagem Apple que decide
de maneira ditatorial o que o usuário pode ter acesso ou não. É a nosso ver um
péssimo uso de um espaço nobre da cabine.
O
painel tampouco é personalizável. No modo Sport, o indicador de carga é
substituído por um conta-giros. E só. O computador de bordo, extremamente
limitado e que só aparece ao comando de um botão no volante, oferece somente
uma leitura manual, que só zera sob comando, e uma automática que zera a cada
trajeto. Informa distância percorrida, tempo de viagem, consumo e média de
velocidade.
Falando
em telas, a tela central é que concentra a maioria dos comandos e ajustes,
quase todos aliás. Nossa, é até cansativo falar sobre ela.
Começando
pelo formato, uma das diferenças da XC60 2026 é a tela expandida para 11,2
polegadas. Com isso ela deixou de caber no espaço destinado a ela, entre as
saídas de ar centrais, e agora parece um tablet enfiado no local. Pra gente não
incomoda, mas entendemos perfeitamente quem estava acostumado ao design com a
tela anterior e com isso acha a nova tela uma gambiarra mal ajambrada.
A
comparação com tablet não para por aí, pois em termos de definição de tela e
velocidade de resposta, é como se fosse um dos tablets mais avançados. Em
nenhum momento travou e sempre respondeu imediatamente aos comandos.
E
haja comandos. Na parte inferior fica sempre visível o controle do ar
condicionado, com os ajustes para motorista e passageiro e o aquecimento e
ventilação dos bancos. Por mais responsivo que seja, é pior do que um comando
analógico como um botão ou alavanca. Comandos simples como aumentar a
temperatura ou fechar a circulação de ar demandam dois cliques: um na faixa de
comandos e outro no comando em si. É desnecessário e tira atenção da estrada, o
que é um contrassenso em especial quando se trata de um Volvo que preza tanto
pela segurança e oferece até HUD justamente pro motorista manter o olho na
estrada. Até você acionar o fechamento de ar externo, o caminhão já jogou um
monte de fumaça pra dentro da cabine do seu carro, e por mais que a Volvo diga
que o sistema fecha sozinho em caso de poluentes, não é o que vimos, ou pelo
menos não com a rapidez suficiente. CUSTAVA TER A PORRA DE UM BOTÃO FÍSICO????
Comandos de ar-condicionado requerem botões físicos e ponto final. Qualquer
solução diferente disso é ruim.
Em
entrevista de setembro de 2026, o líder global de design da Volvo, Thomas Ingenlath,
admitiu que os clientes sentem falta dos botões físicos. Disse: “Nós vamos usar
a tela para as coisas nas quais a tela é boa. Qualquer função que precise
ficar à mostra o tempo todo na tela, não deveria estar na tela. Por essa razão,
nem tudo fica bom numa tela de toque. Por isso vamos reintroduzir alguns
botões adicionais além do que temos hoje nos carros”. A marcação em negrito é
nossa e nos parece de uma obviedade sem tamanho, chega a assustar que caras tão
bem pagos como esse Thomas e centenas de outros designers não saibam disso.
Como sempre dizemos, tem muita gente estúpida sendo bem paga, muitos deles só porque
nasceram no lugar certo.
Outro
comando na tela é o modo de condução, que também precisa de dois cliques, e o
modo de uso da bateria. Além disso, é possível ajustar a dureza do volante e da
suspensão, além de alguns itens de personalização do carro.
Os
modos de condução são cinco.
Hybrid:
modo padrão, toda vez que liga o carro esse é o modo acionado. Usa o motor
elétrico o máximo possível, só ligando o motor a combustão (ICE) com alta
demanda de potência ou quando a bateria está muito fraca. Funciona bem na
cidade, mas na estrada acaba usando demais o motor elétrico numa condição em
que o ICE é bastante econômico e ajudaria a preservar a carga da bateria.
Power:
combina os motores elétrico e a combustão para máxima potência, e coloca um
conta-giros no painel. O ICE fica ligado permanentemente. É o modo de
desempenho e o recomendado para o launch control (freio e acelerador
pressionados por 2s, aí solta o freio).
Pure:
usa somente o motor elétrico. Quando a bateria acaba, se desliga
automaticamente e o carro vai para o modo Hybrid.
4WD:
combina o ICE, que traciona as rodas dianteiras, com o motor elétrico que
impulsiona as traseiras para tração nas 4 rodas visando terrenos com menor
aderência.
Off-road:
levanta a suspensão do carro na altura máxima, desde que abaixo de 25 km/h
quando ela abaixa automaticamente, mas curiosamente mantém o modo híbrido de
gestão de potência.
Esses
modos podem ser combinados com três programas de gestão da bateria:
Automático:
o nome diz tudo. Na calibração da Volvo, a eletricidade é consumida antes até
praticamente o final, quando o ICE entra em funcionamento e a bateria restante
é usada para ajudar na saída da imobilização.
Hold:
segura o nível da carga e usa o ICE para propulsão. Na estrada é o modo mais
apropriado a nosso ver, junto com o Hybrid.
Charge:
carrega a bateria com o ICE. A carga é extremamente lenta, de tal forma que
vemos pouca utilidade pra esse modo.
A
tela central pode ser usada independente da conexão Android Auto ou Apple Car
Play. A conexão de dados via celular está inclusa sem custo adicional, e com
isso é possível baixar os apps diretamente na central com seu login do Google
(o sistema é Android). É ótimo pois libera o celular, e de certa forma disfarça
o completo absurdo que é exigir cabo para a conexão Andoid Auto como faziam os
incas e os astecas. O Spotify funciona bem, o Waze nem tanto; enfrentamos
muitos problemas de desligamento repentino do Waze e do teclado simplesmente
não aparecer quando queremos digitar um endereço (o comando de voz não funciona
no Waze). É nítida a impressão que o Google quis sabotar o sistema da Volvo
para priorizar o Google Maps que, esse sim, funciona muito bem e é o navegador
padrão. Você acaba migrando para o Maps de tão ruim que é a experiência com o
Waze. E aí lembra que o Maps está longe da excelência do Waze para fugir do
trânsito.
Normalmente
não falamos muito do som dos carros por aqui, mas nesse caso vale a menção do
som assinado pela Bowers & Wilkins com 15 auto-falantes da versão Ultra. A
Volvo se orgulha tanto do som que tem um “modo demo” do sistema na tela
central. Destaque para o “Fresh Air Subwoofer”, integrado à estrutura do carro,
que utiliza o ar externo para produzir graves profundos e potentes sem ocupar
espaço no porta-malas. Tem configurações de equalizador e também simula a
experiência sonora de um estúdio de gravação, casa de concertos ou clube de
jazz. Vimos pouca diferença, mas não deixa de ser interessante. De forma geral,
é um som cristalino espetacular, com muito grave e clareza sonora. Dá gosto
ouvir música, a ponto de lamentarmos não ter uma entrada de CD para garantir
que a entrada de mídia fosse de alta qualidade. Afinal, nada disso adianta se o
som está reproduzindo uma música comprimida pelo Spotify e com baixa qualidade.
Vale a pena aumentar essas configurações no seu player de música para
aproveitar a qualidade sonora do sistema do XC60.
Abaixo
da tela tem uns poucos controles manuais: pisca alerta, desembaçador dianteiro
(usando o A/C), traseiro, play, pause e volume das músicas, avançar e
retroceder faixas, e só. Chega a ter uma parte falsa, sem botões. Ah como faria
a diferença ter ali os comandos do ar-condicionado pelo menos...
O
porta-malas conta com abertura e fechamento automáticos e duas funções
interessantes. Ao lado do botão de fechar, existe outro para fechar e trancar,
detalhe que apreciamos. E na lateral direita existe um botão para abaixar (e
levantar) a altura da suspensão de modo a facilitar o carregamento de carga. A
diferença de altura é de alguns poucos centímetros, portanto de utilidade
limitada a nosso ver. Esse modo também pode ser ativado para facilitar a
entrada no carro de forma automática, mas em nosso teste não funcionou direito
e optamos por desligar.
Destaque
ainda para a iluminação, com duas fontes de luz laterais e uma na extremidade
do porta-malas para iluminar o chão com a tampa aberta, belo detalhe.
Existe
cobertura retrátil (viu BYD?) que pode ficar estendida, escondida, e uma
terceira opção que é ficar mais alta, meio que numa diagonal entre o topo do
banco traseiro e quase o teto do carro perto da tampa traseira. Muito
interessante para quem leva mais carga. A capacidade em si não é grande coisa,
469 litros, decepcionante pelo tamanho do carro. Embaixo não há estepe mas sim
um kit com selante e compressor, e algum espaço para cacarecos.
Hora
de sair e é preciso tomar uma decisão, além dos modos de condução e carga da
bateria que já comentamos. Vamos andar em D ou B?
A
seleção é feita pela magnífica alavanca de câmbio em cristal sueco, linda e
agradável ao toque, e que não muda de posição conforme a marcha engatada. Um
toque leve para cima ou para baixo coloca em N, um toque maior para cima engata
o R e para baixo engata o D. Outro toque para baixo engata o B. Essa é uma
outra tendência que não entendemos: qual o problema das alavancas de câmbio que
mudam fisicamente de posição conforme a marcha engatada? Por que tirar mais uma
referência tátil do motorista? É um saco precisar confirmar no painel a marcha
engatada toda vez, porque a sensação da alavanca não disse bosta nenhuma.
Em
D a condução é normal. O XC60 usa o motor elétrico o tempo todo na condução
calma, ligando o ICE somente quando há elevada demanda de potência. A
integração não é tão suave como poderia ser – o Civic híbrido que testamos há
pouco era melhor nisso. É perceptível um leve tranco quando o motor ICE liga,
especialmente se ele está frio, e também uma demora de cerca de um segundo
entre a solicitação de potência pelo acelerador e a efetiva entrega pelo ICE.
No modo Power notamos uma integração melhor, talvez o ICE já fique em estado de
espera para ser acionado, se é que isso é possível.
Conforme
a bateria vai acabando, digamos com 10km de alcance ou menos, o ICE se torna
mais presente, até que quando a autonomia marca 0km aí o motor a combustão fica
permanentemente ligado, a não ser nas paradas (sim, há start-stop impossível de
ser desligado, mas pelo menos funciona de imediato). Mesmo nessa situação dá
pra perceber que tem um pouquinho de empuxo do motor elétrico mesmo para sair
do lugar, ou seja: o controle nunca deixa a bateria de propulsão chegar a 0%,
esgotar totalmente. E mesmo que você não carregue o carro externamente pelo
método plug-in, a central faz com que o ICE mantenha alguma carga mínima nessas
baterias. Se você simplesmente nunca carregar a bateria externamente, o Volvo
XC60 vai se comportar como um híbrido leve, mas nunca como um carro unicamente
a combustão.
Com
a alavanca de câmbio em B ativa-se o modo “one pedal drive”, no qual a
regeneração da bateria faz as vezes de freio; ou seja, ela conecta na
transmissão e usa o movimento ali para dar carga na bateria. Isso na prática se
transforma em capacidade de frenagem, pois o carro desacelera rapidamente,
chegando a parar. É necessário algum tempo para se acostumar, mas é fácil pegar
o jeito e bastante recompensador, pois ao invés de gastar o freio você está
gerando energia. Pegamos uma estrada vicinal vazia porém repleta de lombadas, e
toda vez que precisávamos reduzir a velocidade para passar em uma delas, era
bem satisfatório saber que estávamos carregando a bateria e não gastando os
freios. Ao final do trecho, saímos com mais energia na bateria do que começamos.
Pelo
que vimos, é raro esse modo em carros híbridos, e mais comum em puramente
elétricos. Parabéns à Volvo por permitir esse estilo de condução. Só que isso
esconde um dos temas mais irritantes do carro.
Todo
carro automático tem “creep”, que é aquele deslocamento em baixíssima
velocidade quando não encostamos o pé no acelerador. É o motivo pelo qual
precisamos ficar com o pé no freio ao estarmos parados no semáforo com a marcha
D engatada.
Pois
bem. Para que o motorista possa usar o “One Pedal Drive” no XC60 até o carro
parar completamente, o “creep” pode ser desligado. Faz sentido: se estiver
acionado, o carro não vai parar mesmo sem o pé no acelerador e será necessário
segurar com o freio.
Só
que essa ativação e desativação tem vida própria. Notamos que desligou algumas
vezes que usamos o modo B. Em outras vezes, não desligou. Ligamos o carro,
colocamos em D e não acionou. Acionamos manualmente, desligamos o carro, e na
próxima vez que ligamos ele desligou sozinho.
É
extremamente frustrante você colocar a alavanca em D ou R e o carro
simplesmente não sair do lugar. Você está ali esperando aquele movimento
automático para a manobra e o carro não faz nada. Um toquinho no acelerador é
ruim, pois entrega mais potência e velocidade do que queremos. Aí, como todos
os comandos são na tela, você precisa dar dois cliques naquela merda para ligar
ou desligar a função “creep”. E não tem um racional, por exemplo porque não
desligar sozinho toda vez que o carro é colocado em B e depois ligar
automaticamente em qualquer outra marcha? Mas para isso alguém na Volvo
precisaria testar o carro e gostar de carros, e não ficar obcecado babando como
um imbecil para o “futuro elétrico”.
Precisamos
notar que após um tempo esse defeito desapareceu e o modo “creep” ficou
constantemente acionado, como gostamos. O que aconteceu? Não sabemos.
A
potência combinada do motor elétrico e combustão é de 462 cv e 72,3 m.kgf de
torque, sendo 310 cv do motor 2.0 16v turbo e 145 cv e 31,5 m.kgf de torque do
motor elétrico. A aceleração é de 4,8s no 0 a 100 km/h e a velocidade máxima é
limitada a 180 km/h, para tristeza dos imbecis que rodam nas estradas
especialmente do interior achando que estão na F1.
A
capacidade do tanque é de 71 litros, excelente, mas o consumo é elevado. Na
cidade é difícil medir pois, como falamos, o carro prioriza o uso da
eletricidade. Com zero de carga na bateria, o consumo de combustível é até bom
para o porte do carro: chegamos a 8 km/l, ou 6 km/l em trânsito extremamente
pesado. Na estrada, usando o ICE e com a carga da matéria no modo hold, fizemos
médias entre 12 a 13 km/l o que é condizente com o porte do carro e
elevadíssimo peso de 2,6 toneladas.
A
capacidade total da bateria é de 18,8 kWh, o que permite um uso segundo o
Inmetro de até 48 km. O indicador de autonomia da bateria é bastante otimista,
na linha do indicador de minutos em espera até o carro do Uber chegar (indica 3
minutos e leva 20). Com carga total ele marca em torno de 70 km de autonomia,
mas no uso é fácil notar que o consumo é maior que a distância percorrida.
Digamos, roda-se 8 km no modo elétrico mas a autonomia cai em 12 km. Então
acreditamos que a autonomia real esteja próxima dos 48 km mesmo. Rodar no modo
elétrico é a situação padrão no XC60, com desempenho urbano suficiente e um
silêncio a bordo magnífico. Outra vantagem pelo menos pra gente estranha como
nós é o fato de você ligar o carro no modo elétrico, digamos que você precisa
só mudar de vaga, fazer uma manobra, você não precisa acionar um motor de
arranque eu vai ligar um motor a combustão que vai acionar as bombas e as velas
e etc etc, um sistema muito mais complexo. Ligando só a bateria a gente não se
incomodava de ter que ligar o carro para fazer esses micro deslocamentos.
O
desempenho dessa cavalaria toda é realmente impressionante e o XC60 é capaz de
acelerações quase brutais, tanto partindo da imobilidade e fazendo bom uso da
combinação da tração dianteira do ICE e traseira do motor elétrico, com zero
derrapagem de pneus, quanto em retomadas na estrada em velocidades mais
elevadas. Agora, não tem mágica: o carro faz isso mas ele deixa claro que não
gosta: é bem notável o esforço que os motores fazem para vencer o peso, e como
todo o ambiente interno não foi feito para aquilo. O centro de gravidade é
muito alto e portanto todas as oscilações, em acelerações, frenagens e
principalmente em curvas, são amplamente sentidas pelos ocupantes. Passar em
valetas é outro problema, comum em SUVs, da cabeça dos ocupantes ficar balançando.
Parte
da culpa é de um carro alto e pesado, e parte é da suspensão – só que aqui
vamos defender. É amplamente preferível perder algo em comportamento dinâmico
para ganhar muito em maciez de rodagem quando se trata de um SUV de uso
familiar e proposta luxuosa. A versão T8 vem equipada com suspensão pneumática
a ar, com quatro esferas que substituem as molas helicoidais e regulam
automaticamente a firmeza da suspensão e que permitem o levantar e abaixar que
mencionamos anteriormente. A calibração é voltada para flutuação, e o Volvo
XC60 é de longe, mas muito longe, o melhor carro que já testamos para rodar em
asfalto castigado. É daqueles que transformam buracos em asfalto liso. É um
enorme prazer desfrutar desse conforto em 95% do nosso uso do carro em ambiente
urbano, abrindo mão de certa estabilidade em altas velocidades. Dito isso, o
comportamento do carro é muito neutro e de alta aderência quando exigido, e
embora claramente não seja um esportivo, é altamente responsivo. A Volvo
poderia ter considerado uma opção de regulagem da firmeza da suspensão. Como
está, ela é indexada à velocidade e ao modo de condução, mas em nossos testes
praticamente não notamos diferença. A arquitetura de suspensão é das mais
modernas, com duplo braço triangular de alumínio na dianteira e multilink na
traseira com uma mola transversal na mesma linha que os Corvettes.
A
lista de equipamentos é muito completa, ainda mais na versão Ultra testada.
Inclui:
Segurança e Assistência à Condução
·
Pilot Assist e ACC: Sistema de condução semiautônoma com controle de cruzeiro adaptativo.
·
Frenagem Automática: Detector de pedestres, ciclistas, animais grandes e frenagem de
emergência em cruzamentos.
·
Segurança Ativa: Alerta de
ponto cego (BLIS), assistente de permanência em faixa e alerta de tráfego
cruzado traseiro.
·
Faróis Full LED: Sistema de
iluminação direcional ativa com acendimento automático.
·
Tração e-AWD: Sistema de
tração integral permanente acionado pelos motores combinados.
·
Câmeras 360º: Sistema de
visão panorâmica para manobras.
·
Head-Up Display: Projeção
de velocidade e navegação diretamente no para-brisa.
·
Booster Seat: Em ambos
lados do assento traseiro, é possível levantar a parte inferior a um patamar
mais alto, muito útil para crianças.
Conectividade e Entretenimento
·
Google Built-in: Central
multimídia com Google Maps, Google Assistant e Google Play nativos, sem
precisar plugar o celular.
·
Painel Digital: Tela de
instrumentos configurável de 12,3 polegadas.
·
Carregador por Indução: Carregamento sem fio para smartphones no console central.
·
Som Bowers & Wilkins: Sistema de áudio ultra-premium com 15 alto-falantes e 1.460W de
potência.
Conforto e Acabamento Interno
·
Teto Solar Panorâmico: Vidro elétrico que cobre toda a extensão da cabine.
·
Abertura Hands-Free: Tampa do porta-malas com abertura automática por sensor de movimento
sob o para-choque.
·
Ar-Condicionado Dual Zone:
Sistema de climatização digital com purificador de
ar de cabine.
·
Bancos Elétricos: Assentos dianteiros com regulagem elétrica e memória para o motorista.
·
Bancos de Alta Performance: Assentos dianteiros com funções de aquecimento
e ventilação.
·
Sensor de luz e chuva: sendo esse
possível de calibrar a sensibilidade com um botão rotativo, gostamos.
·
Retrovisores interno e externos fotocrômicos, estes com rebatimento automático ao trancar.
Dinâmica e Visual Externo
·
Suspensão Pneumática Adaptativa: Sistema ativo com bolsas de ar e nivelamento automático de altura.
Uma
nota sobre o ADAS: o ACC é dos melhores testados: acelera suavemente e possui
quatro regulagens de distância do carro da frente, sendo que a menor é bem
utilizável para evitar que outros carros cortem a sua frente a todo momento,
como acontece com regulagens mais conservadoras. Para frear é um pouco
exagerado, mas é de se esperar em um Volvo. O irritante é que o ACC vem
necessariamente combinado com o auxílio de permanência em faixa, e que a nosso
ver é muito mal calibrado e deixa o carro mais à direita do que gostaríamos. Ou
você deixa assim e toma um susto a cada carro ultrapassado, achando que vai
bater, ou você fica constantemente forçando o volante para a esquerda o que se
torna cansativo. Ou desiste do ACC de uma vez.
Existe
ainda um alerta quando, no congestionamento, o carro da frente se movimenta,
mas você não sai do lugar. Ele emite um aviso sonoro e um alerta visual perguntando se o motorista vai
conduzir, bem útil para esses estúpidos que ficam mais no celular do que
dirigindo.
Os
freios são a disco nas quatro rodas e muito potentes: exigimos no teste e é um
absurdo o que freia.
Conclusão
É
um carro bonito, de alta performance, muito bem equipado, com motorização
híbrida que permite a utilização urbana em modo 100% elétrico por muito tempo.
Até aí, nada que não se espere de um carro de mais de meio milhão de reais.
Onde
o Volvo brilha é em acabamento, suspensão, conforto, silêncio a bordo e
desempenho em aceleração. A motorização híbrida é destaque, pela potência
combinada, autonomia e funcionalidade no modo elétrico, pecando pelo consumo quando
utiliza o motor a combustão. A lista de equipamentos é boa, porém na média da
categoria, que é bem alta. O Volvo falha em usabilidade, com a confiança
excessiva nas telas e limitação da personalização, e poderia ser melhor em espaço
para pernas dos passageiros de trás e porta-malas, que poderiam ser maiores
dado o tamanho do carro.
É
uma opção válida pelo preço, trazendo um ar de “luxo discreto” que se contrapõe
muto bem a certos excessos de design cometidos pelas três alemãs e pela Lexus.
Desabona o design igual há 10 anos e o modelo 2028 recém-revelado. Pelo
dinheiro, nós preferimos uma opção de 2 carros, com um modelo mais esportivo (talvez
um Civic Si ou Corolla GR) e outro familiar como um Taos ou algum SUV híbrido
chinês. Além do que, carros nessa categoria no Brasil necessitam de blindagem,
e blindagem é inimiga de quem gosta de carro.
Estilo
8 – É muito bonito e o estilo é atemporal, com características marcantes de
personalidade como o martelo de Thor nos faróis dianteiros e as lanternas
traseiras elevadas. Joga contra o fato de ser igual há uma década.
Imagem
– Tem um ar de mãe de família.
Acabamento
15 – Impecável mesclando madeira, cristal e couro napa, com montagem do mesmo
nível. Padrão elevadíssimo mesmo, imaginamos que não faz feio frente a um
Classe S.
Posição
de dirigir 10 – Amplas regulagens de altura, distância, apoio das coxas, lombar,
abas do banco, e o movimento do volante em altura e distância é bem amplo. Pra
finalizar, acelerador pivotado no chão. Só faltava ser uns 15 cm mais baixo,
mas aí não seria um SUV.
Instrumentos
3 – Muito fraco o cluster sem opções de personalização, nem mesmo temperatura
da água. Marcador de combustível minúsculo. A nota só não é menor pois a resolução
é excelente.
Itens
de conveniência 10 – Bastante completo, pra achar faltas precisa procurar pelo
em ovo, tipo massagem nos bancos a ar-condicionado independente para o banco de
trás.
Espaço
interno 6 – Falta para as pernas dos passageiros de trás, e o túnel central é
muito alto. Poderia ser melhor dado o porte do carro. Na frente e em altura é excelente.
Porta-malas
6 – Não chega em 500 litros em um carro daquele tamanho. Funciona para o dia a
dia, em viagens pode requerer alguma ginástica para caber tudo. Acabamento, cobertura
e iluminação excelentes.
Motor
9 – É bizarro um Volvo ser o mais potente da categoria, mas é o caso com os 462
cv e mais de 70 m.kgf. Acelera muito mesmo. Não leva 10 por dois motivos: poderia
ser mais potente no modo somente elétrico e o acionamento do motor a combustão
na aceleração poderia ser mais suave.
Desempenho
9 – Acelera muito e nas curvas tem bastante chão, embora o centro de gravidade
alto logo te lembre que esse carro não foi feito pra isso. E se você for um
animal que anda em velocidades proibidas nas estradas, ele é limitado a 180
km/h e vai levar benga de Corolla.
Câmbio
10 – É uma unidade de oito marchas da própria Volvo, extremamente suave e que
faz a perfeição a integração da propulsão a combustão com a que vem do motor
elétrico na traseira. Estepacular mesmo. Existe troca manual com comandos laterais
na alavanca, mas fica sem sentido nenhum pela calibração original tão boa e possibilidade
de carregar a bateria no modo B em descidas de serra.
Freios
10 – São ventilados nas 4 rodas com modulação de pedal perfeita e uma mordida
forte que para esse mamute de mais de 2 toneladas num instante. Mas o melhor é
praticamente não precisar usá-los ao adotar o modo de regeneração com o câmbio
em B.
Suspensão
673 – Arranjo moderno com duplo A na dianteira, multilink na traseira com feixe
de molda transversal, mas o charme principal são as esferas que controlam a
maciez e a altura e deixam esse carro um tapete, extremamente agradável e
isolado do asfalto lunar.
Estabilidade
8 – Centro de gravidade alto faz com que o carro aderne antes de agarrar na
curva e demonstrar uma capacidade surpreendente.
Segurança
passiva 10 – Volvo.
Custo-benefício
7 – É muito dinheiro para gastar em um carro. Se você tem, se é o seu sonho, vai
em frente – é um dos melhores da categoria e o melhor em muitos aspectos. Mas a
gente faria outras coisas com 500 mil reais.
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